Como é ter um carro velho

Eu sempre quis ter um carro.

Imaginava um carro fantástico, daqueles de comercial de raspadinha, mas com um som bem maneiro, igual festival de tunning. Sonhava com uma pintura purpurinada e um ronco estridente. Enfim, meu primeiro carro foi um chevette ano 79.

Pictures

Eu peguei minha habilitação em 2006 e em 2010 comprei o chevette. Sem nenhuma experiência, nenhum conhecimento de carro e sem compania comprei o carro sem nem saber ligar um limpador de parabrisa. Comprei como quem compra uma roupa usada, sem nenhum critério, simplesmente fui lá, gostei e levei! No dia seguinte à minha nova aquisição, fui toda bobinha trabalhar de carro, voltei para almoçar em casa. Quando retorno ao trabalho subo a calçada e bato direto numa pilastra de concreto que cai no parabrisa do carro e acaba com tudo: resultado – além de eu ter dado graças a Deus de ter comprado o Chevette e não um carro mais novo, de ter saído viva depois de desviar da pilastra de concreto que quase cai na minha cabeça, fico mais uma semana sem o carro que teve que lanternar e pintar todo. Que dureza!

Mas se pensam que a história acaba aí estão muito enganados, ter um carro velho é antes de tudo viver perigosamente. Depois desse primeiro episódio eu empurrei inúmeras vezes aquela lata de sardinhas. Fervi o radiador um tanto de outras vezes, fiquei sem freio, sem embreagem, sem paciência. Já chutei ele, já xinguei. Ter um Chevette não é pra qualquer pessoa. Tem que ter estrutura. Numa das vezes em que ele ferveu, exlodiu e queimou todo o rosto do meu namorado à época. O que gerou imensas viagens dentro dele mesmo pra levar o moço ao médico, ouvindo Exaltasamba num calor dos infernos porque o carro é mais quente dentro do que fora.

Mas a grande verdade é que meu carro velho me deu uma das coisas que eu mais valorizo na vida hoje em dia, ele me deu liberdade! Ele me deu a vantagem de não andar mais a pé. Ele me colocou um degrau acima na escada social. Ter meu próprio carro me deu a felicidade de beijar vários caras que nunca me beijariam a pé. Meu carro velho me levou à Lapa! Ter um carro velho é ter estilo, é se cortar no podre da porta mas mesmo assim chegar feliz numa festa. Ter um carro velho é devoção, é amor, é pura paciência. É garimpar uma peça nova, é aprender a fazer gatilhos no motor, é andar sempre com uma garrafa de água no carro. É dar um valor enorme em ter uma ferramenta qualquer no carro.

Personalizei meu Chevette como qualquer garoto jovem faria, coloquei neon azul no salão e um São Jorge na lateral, um sachê do Botafogo e cheirinho de carro novo. Depois de ter passado mil e um perrengues com o “carrão”, tive uma batida de carro com uma charrete. [é sério]. A carroça bateu no meu carro, eu estava com meu filho, discuti com o cara pois danificou a pintura e o cavalo quase quebrou meu pára-choque. Dei a volta pela outra rua e atropelei uma menina de 15 anos de moto que estava bêbada. Tudo isso em menos de 1h40min.

Nunca mais quis o Chevette.

Comprei um Kadett 10 anos mais novo, hoje sou apaixonada pelo meu negão, meu mais novo carro velho!

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Sobre danielaferpe

Envolvida em atividades administrativas na vida profissional, tem admiração por Novas Mídias, Administração e Comunicação. Intrépida e blogueira. Ver todos os posts de danielaferpe

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